“Tantas coisas que não escutamos”, por Regilene Sarzi-Ribeiro (Curadora)
Na atualidade, com inúmeras ferramentas de inteligência artificial à disposição para geração de imagens, poderia se acreditar que elas, as imagens, continuam imperando no campo da comunicação humana e também nas Artes Visuais.
Entretanto, observa-se que o som, antes que a imagem, se faz onipresente em nosso cotidiano. Basta ficar em silêncio por alguns instantes para notar a quantidade de sons com os quais convivemos, seja nas grandes cidades ou áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos: ninguém está livre, por exemplo, dos efeitos da poluição sonora. Mesmo as pessoas com deficiência auditiva convivem com a agitação e o movimento, que, na maioria das vezes, pode ser o causador do som.
Mas existem sons que acontecem, se propagam pelo espaço e marcam a presença de certas “coisas” que podem passar despercebidos, que não escutamos. São presenças que se tornam ausências se não forem percebidas, vividas e experienciadas, afinal, segundo o filósofo da percepção, Maurice Merleau-Ponty, a realidade só existe na medida em que tomamos consciência das “coisas” através da percepção e, portanto, o corpo é um elemento chave tanto para habitar o mundo, quanto para dar existência, tornando a ausência em presença, a tudo o que se sente, se vê, se percebe e se ouve.
Antenado com seu tempo, o artista multimídia Marcelo Bressanin se apropria do som como matéria plástica, envolvendo a materialidade de suas obras de arte com equipamentos, instrumentos e dispositivos que suportam suas ideias, geradas para provocar a experiência com o sonoro, com o entorno das obras, com o espaço e o movimento que conduzem o sonoro, múltiplo, diverso, caótico, mas também constante e poético, uma presença que nos leva a vivenciar o sonoro de formas distintas.
No percurso da exposição, a primeira obra “Tantas coisas que não escutamos”, de 2018, é composta por uma instalação sonora desenvolvida por Bressanin durante a residência artística “La Ira de Dios”, apresentada no espaço cheLA – Centro Hipermidiático Experimental Latinoamericano, em Buenos Aires (ARG). Essa obra explora a memória compondo-se de sons do lugar, da comunidade e da cidade onde se localiza o espaço cheLA, por meio de alto-falantes e amplificadores de áudio.
Seguindo por uma cronologia temporal de criação das obras, na sequência, em 2021, o artista produziu “Deluxe 5″: dispositivo composicional randômico”, que se constitui a partir de um aparelho de rádio e TV que, embora obsoleto, sintoniza emissoras radiofônicas da região e de forma aleatória geram uma colagem sonora. A obra foi desenvolvida ao longo da residência artística do projeto “Em residência: Bauru", em 2020, e, por conta da pandemia de Covid-19, foi exibida somente de forma virtual, sendo, portanto, inédita presencialmente.
Na sequência, temos a obra Ciclos (2022), fruto da participação de Bressanin na residência artística “Organicidades”, em Franco da Rocha (SP). Diferentes registros sonoros foram captados pelo artista ao longo de suas pesquisas em Franco da Rocha e utilizados em experimentos técnicos e composicionais, os quais podemos ouvir nesta obra em formato de uma estação de escuta. Também de 2022, a obra “Ornitofonias” é um convite à poesia sonora e ao contato com a natureza a partir do mapeamento e do registro em campo de sons de aves típicas de Bauru. Este trabalho inédito é resultado da pesquisa de mestrado em Mídia e Tecnologia, concluído pelo artista em 2022, junto à FAAC, UNESP de Bauru.
Em 2023, Bressanin criou a obra “Alerta para o horizonte: vestível para escuta e observação do céu”, para o projeto “Aproximações: diálogos contemporâneos com o acervo do Museu de Arte Osório Cesar". A obra foi inspirada em uma pintura de (João) Rubens Neves Garcia, que compõe o acervo do Museu de Arte Osório Cesar, com a qual o artista tomou contato durante a residência artística do festival “Soy Loco por ti Juquery”. A pintura, embora seja uma imagem sem som, levou Bressanin a imaginar os sons daquela imagem, dando origem a sua obra sonora.
Compõem ainda a mostra, três obras inéditas intituladas “Playlists”, “Agora silêncio” e “Dispositivo sonoro de uso recorrente para isolamento social”. A primeira obra, “Playlists”, é um passeio por diferentes mídias de arquivamento e compartilhamento de seleções musicais, que visam despertar a memória, revelando práticas sociais. A segunda, “Agora silêncio” é uma homenagem poética do artista ao seu ex-companheiro falecido em 2022, por meio de uma alusão sútil e delicada, aos áudios das últimas conversas entre os dois. E, por fim, o trabalho “Dispositivo sonoro de uso recorrente para isolamento social”, que coloca em discussão o uso de fones de ouvidos como uma forma de restrição ao contato social, muito comum na atualidade.
Portanto, nesta exposição, intitulada “Tantas coisas que não escutamos”, podemos visitar um conjunto de obras de arte que constituem uma retrospectiva de dez anos de atuação de Marcelo Bressanin como artista sonoro e conhecer suas instalações sonoras criadas a partir de um exercício em arte e tecnologia que ultrapassa as questões dos dispositivos, conformando um diálogo com a corporeidade, a percepção e sobretudo com a interação que a arte sonora promove ao seu público, para tirar o som da ausência anestesiada do espaço-lugar em que se encontra no cotidiano e traduzi-lo em presença significante, carregada de sentido e imantada pela experiência do sonoro vivido pelos corpos dos visitantes.
TANTAS COISAS QUE NÃO ESCUTAMOS
GALERIA MUNICIPAL ANGELINA W. MESSEMBERG - BAURU (SP)
01.04 A 01.05.2026



